Tudo começou com um email onde elas me perguntavam como funcionava o processo de inseminação artificial na Suécia. Quando li que se tratavam de duas mulheres, pensei: Quem seriam essas duas anônimas? Duas lésbicas lendo meu blog? Seria verdade? Como posso confiar? E duas pessoas do mesmo sexo podem ter filhos? É permitido isso?
Passei duas semanas pensando e fui pesquisar a resposta com uma amiga sueca. Ela me esclareceu com muito respeito sobre o assunto e entao eu acreditei que seria possível duas mulheres procurarem essas informações e que era sim permitida aqui na Suécia, porém a maioria que faz isso procura a Dinamarca, pois lá dizem que é possível saber os dados do doador (o pai biológico nao é um anônimo). Respondi o email e vi que elas comentavam no blog de uma outra blogueira conhecida. Percebi que eram amigas e senti-me mais relaxada com isso.
Após minha resposta, elas fizeram-se mais presentes no blog e aos poucos, a afinidade foi acontecendo. Trocamos alguns emails e eu descobri que nao eram duas mulheres qualquer. Eram duas mulheres especiais. Sensíveis, educadas, talentosas, responsáveis e muito humanas. Aquele tipo de pessoa que sente a dor do outro e tenta fazer algo a respeito. Quando começamos a nos conhecer, fui percebendo o quao inteligente elas eram e preocupei-me se eu, uma professorinha de Educação Física, teria respaldo para sustentar uma conversa com elas. Para minha alegria, além de conhecimento elas ostentavam a simplicidade como guia. Aquele tipo de pessoa inteligente que nao menospreza os menos sabidos, que nao se envaidece, que nao humilha, que aceita as pessoas menos qualificadas culturalmente porque acreditam em algo maior que títulos. A forma humilde de se apresentarem unida a compaixão por todos os seres (animal, plantas e crianças) só fez com que eu aceitasse cada dia mais aquela amizade inusitada. Parafraseando Zeca Pagodinho, "Nao faz assim que eu posso até me apaixonar..." Elas acompanhavam o desenvolvimento e foram se apegando a alguns bebês de blogs - nao somente o nosso. Mandaram presentes e cartas lindas que guardei para a Beatriz ler um dia. Por fim, elas desistiram da ideia da inseminação, mas nao das amizades que conquistaram virtualmente. No Natal, elas estavam todas arrumadas para a ceia, enquanto falavam comigo e com a Celi - que elas já conheceram pessoalmente em SP. Do outro lado da tela (e do mundo) no skype, eu e a Celi, trajando pijamas estampados e pantufas, conversávamos com elas e nos divertíamos na tríade simultânea Brasil - Alemanha - Suécia. E foi demais! Três vivas para a tecnologia, especialmente para o criador do skype, um estoniano que fez carreria aqui em Estocolmo.
Quando embarquei para o Brasil em janeiro deste ano, elas me escreveram: "Nos diga onde você vai estar, que nós iremos até você!" Pessoas de palavra me ganham rápido e eu sabia que elas nao falavam da boca prá fora. Elas foram nos encontrar em Joao Pessoa, capital da Paraíba em marco desse ano. Eu, meu marido, Bia e elas: todos juntos tomando um banho de mar na Praia do Bessa. Depois da água de coco, seguimos para um restaurante beira-mar. O garçom disse que eu nao podia entrar de maiô e eu sussurrei a elas: "Duvido que se eu fosse a Gisele Bunchen (ou pelo menos tivesse o corpo dela), ele me mandaria vestir a canga!" Beatriz pediu sorvete antes do almoço e eu fiquei PPP... da vida, mas fiz aquela cara de paisagem. "Como assim Beatriz? Você NUNCA tomou nem pediu sorvete antes do almoço e bem no dia que eu vou conhecer duas leitoras especiais do blog, você me dá uma dessas? - Pensei - mas nao falei. Olhei para o freezer e pronto. Tomou cornetto antes da comida. Alguma sugestão para um momento desses? Eu sei que isso nao é nossa rotina, mas o que eu ia fazer ali? Deixei o pau comer, ou melhor, o sorvete acabar enquanto caí numa agradável conversa com nossas novas amigas. Meu marido ficou bem a vontade também, e todo esse clima descontraído foi decisivo para que o encontro fosse uma experiência de sorrisos e boas lembranças.
A primeira vez que me separei da Beatriz durante a viagem, deixei-a com o pai e eles foram num parquinho brincar de pula-pula. Eu saí com o casal de amigas e fui até a Praia do Jacaré. Estive olhando as fotos de 2011 e constatei que dois anos se passaram e voltei lá com o mesmo par de sandálias. Só dou fim numa coisa, quando nao dá mais prá usar meeeesmo! :D
Divertidas, alto-astral, espirituosas, cheias de tiradas engraçadas. Essa foi minha experiência de primeiro contato com um casal homossexual. Eu espero que minha família continue lidando com esse assunto de uma forma leve e respeitosa. Eu nem precisei exercitar tolerância. No meu caso, conheci duas pessoas maravilhosas. Elas é que tiveram que ter tolerância comigo. Hehehehehhehe....
Obrigada Rô! Obrigada Alê! Vocês sao incríveis e moram no nosso coração! Beijos
PS- E quem disse que através de blog nao se faz amigos???















